Dia 02 de fevereiro – Irreversível (A postagem final)

Irreversível!!!!

E se algum detalhe  tivesse sido diferente? …

Se eu não tivesse feito capoeira

Ou aprendido com o Donizete a ver o mundo de cabeça pra baixo…?

Se e ele não tivesse aprendido capoeira com o Moraes, que aprendeu com João pequeno, que aprendeu com pastinha, que aprendeu com um africano….?

e e se a capoeira nunca tivesse existido?

E se eu não tivesse passado por  todos os problemas que passei 6 meses antes da viagem,

Ou se não tivesse sobrevivido às dificuldades

Ou se as coisas não tivessem sido tão difíceis?

E se eu tivesse crescido em berço de outro, e passado no inglês na primeira tentativa…

E se a Família Bunto não fosse Panafricanista e não tivesse me recebido como um filho mesmo sem me conhecer,

Ou a cultura africana não fosse tão receptiva

ou se os negros ao redor do mundo não tivessem se rebelado desde o primeiro traço de colonialismo, escravidão  e imperialismo…?

E se os anos de resistência não tivessem ensinado  este povo a ser unido independente da etnia, religião ou língua falada…

E se eu não cantasse rap no Brasil,

ou não gostasse de física quântica…

E se…

Maybe …

Se cada detalhe tivesse sido diferente…

Talvez eu não teria vindo

ou não teria conseguido sobreviver

Ou não teria feito tantos amigos

ou não teria sabido aproveitar as oportunidades

Ou não teria escrito este blog…

Se eu não tivesse fazendo tanta pergunta

E vc lendo…

Mas pra bem e pra mal

O TEMPO É IRREVERSÍVEL!!!!!!!!

E o melhor de saber disto,

é a consciência da responsabilidade com nossas ações no presente e daqui pra frente

Volto irreversivelmente outro homem, menino, angoleiro, ser humano

Dando graças a vida “por todas as dificuldades que passei…

Pela ajuda que tive

E carinhos que nos ajudam a vivenciar individualmente um pouco da própria humanidade socialmente construída:

Cair e seguir gingando

Chorar e seguir cantando

Sofrer e seguir amando

Viver e seguir lutando

Se reconhecendo no outro

Deivison Nkosi

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African Pledge

WE ARE AN AFRIKAN PEOPLE

We will remember the humanity,

glory and suffering of our Ancestors

and honour the struggle of our Elders

We will strive to bring new values

and new life to our people

We will have peace and harmony among us

We will be loving, sharing and creative

We will study and work – so we may learn

We will listen and remember – so we may teach

We will cultivate self-reliance

We will struggle to resurrect

and unify our Continent – MAMA AFRIKA

We will raise many children for our nation

We will have discipline, patience, devotion,

respect and courage

We will live as modest people,

defend our community

and provide new direction for our people

We will be free and self-determining

WE ARE AN AFRIKAN PEOPLE

WE WILL WIN!

WE WILL WIN!

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01 de fevereiro – Arrumando as coisas pra partir

Caro leitor, esta viagem está chegando ao fim.

Dou graças à vida por cada momento vivido,

cada palavra espremida, exprimida, comida, sentida

vivida

escre vida

and lida

Esta viagem, que não termina no próximo vôo Johanesburgo-Guarulhos

Acaba de forjar um novo homem

Que ainda repleto de cicatrizes e ferimentos abertos

Sentiu-se em casa ao repouso de um copo de água fresca

Soluçou emotivo aos afagos de parentes próximos que jamais havia cruzado

Mas que de alguma forma o fortalecia fazendo-o sentir humano

U mano pronto pra a próxima roda.

Give Tanks Mama África

E é com o seu cheiro límpido de gente viva

E o seu tempero apimentado de emoções

Que eu volto pra casa carregando uma tonelada de novas experiências

Porém, muito mais leve do que já sonhei estar

Kea leboga

Aos meus amigos daqui e da li

Que não me permitiram sentir-se só, mesmo quando achava que estava

To ansioso pra voltar e com o coração partido pela nova família que fica

Mas fica um pedaço meu aqui,

Assim como os levarei comigo

Com a certeza de que vale a pena seguir lutando

vivendo

Gingando…

Obrigado a Pitsi, Rutendo, Maluleke, Siabonga, Tabo, Lú, Zelezeck, Chilongane, Mme Maria, Tumi, Boitumelo, Tswaro, Lesley, Mama Bunto, Baba Bunto e tantas outras novas mães, pais, e irmãos que ganhei neste ultimo mês abençoado.

Sem mais

É isto…

Espero encontrá-los(as) nas próximas viagens

 AXÉ

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30 de janeiro – Ê domingão inesquecível (3)!!!

 

À noite, que tava longe de terminar, nos dirigimos a uma festa no centro da cidade (Eu Ptsi e Lu ngelo).

Was a Nice patty!!!

Eu descobri quando cheguei aqui que o Jazz é muito forte na África do Sul e na festa, jovens de uns 20 a 30 anos tocavam sons de primeira que lembravam Mile Davis ou Luis Armstrong.  Sem exagero, os caras tocavam muito… e o mais da hora, só a negada jovem curtindo e dançando a lot!!!

Entre uma musica e outra, o microfone ficava aberto pra quem quisesse “freestylar”… em seguida, uma moça muito bonita de uns 20 anos pega o microfone e decreta ali mesmo o apocalipse!!!, o que era aquilo?  Sua voz, com um agudo que lembrava Érica Badu, fazia grooves e bitboxs ao melhor estilo de Ella Fitsggerald… em meios aos badabadas e badabadabadá… um outro menino pega o microfone e empolga o publico levando uns sons da Miriam Makeba e outros artistas que eu não conheço.

Foi muito gostoso.

Pra completar a noite, Pitsi sobe no palco e começa a cantar umas musicas que lembravam os falsetes do Gilberto Gil… enquanto isto, me intima pra subir no palco… Pego o mic… e disparo meu brazilians arsenal:

Iê! Amandla Awetu!!! Poder Preto!!

O sistema não queria, mais aconteceu

Tivemos acesso aos livros, percebeu

Agora eu sei quem é o opressor

Agora eu sei quem é o senhor

Agora eu sei quem lucra com a dor

Cresce o mais valor – aumenta o terror

Os negrinhos de favela cerram o punho erguem a mão

Black punthers, kilombolas, rumo à revolução

Bolchevique rebelde, tempestade vulcão

Desembainha guerreiro o que vem do coração!!!

Engatilhe o livro pra dar um tiro preciso na veia horta da opressão

Vem pra luta meu truta, não desanima labuta pois a conduta é para a Revolução

Liberte-se da escravidão mental, então rebele-se, erga a cabeça e enfrente o mal

Perceba-se!! a escravidão inda ta aqui, venja as correntes, que tão em vc, que tão em mim

Mas to blindado, eu sou de ogum, eu sou zumbi, sou Luiz Gama, Dandara e Luiza Mahin

Na ginga Nzinga, Revolução eu sou do Haití

Ouço um tambor e até um tiro, o ecoar da revolução

Eu to armado e não vacilo com muita disposição

A minha arma é a minha história, minha consciência a muniçao

Mas é ao futuro… a quem dedico atenção

Antigamente correntes, hoje a etiqueta e a cachaça

Hoje a gente alimenta muito da nossa desgraça

Vc acha graça? Desligue a Televisão

Aqui é Nkosi, isquerando a revolução !!!

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30 de janeiro – Ê domingão inesquecível (2)!!!

A festa de despedida

Chegamos na Ebokhosine  umas duas horas da tarde. Exaustos, tiramos um cochilo enquanto aguardávamos alguns amigos que viriam para o meu almoço de despedida.

Fui acordado pela galera tirando uma foto minha babando de cansaço (*risos).

Após uma oração, Baba Bunto iniciou uma cerimônia de homenagem falando muitas coisas bonitas, dentre as quais que agora, eu sou parte desta família africana. Fiquei muito emocionado. Em seguida comemos uma comida bem gostosa feita pelos homens que ficaram na casa enquanto visitávamos a igreja de Mama Buntu.

Depois do Rango, cada um dos presentes, falou alguma coisa sobre os momentos especiais que vivemos, ou sobre a importância da amizade. Ao final, Baba me presenteou com um livro sobre a historia das civilizações africanas.

Fiquei sem palavras com tanta homenagem… e mesmo sem entender tudo que as pessoas falavam ao meu respeito, eu sentia uma sinceridade no olhar que dispensava qualquer dicionário.

Como não havia forma melhor de confraternizar, aumentamos o som e dançamos juntos!

Sinto o meu coração dividido entre múltiplos sentimentos positivos e negativos que se ampliam ao mesmo ritmo que novos amigos e experiências se somam, subtraindo o vazio existencial em geométricas equações complicadas de explicar, mas sensitivelmente intensas.

 Não vejo a hora de voltar pra casa, o meu povo, meus conflitos… mas não posso deixar de me questionar onde é a minha casa se aqui eu me encontrei?

Bob Marley dizia que o mundo era a sua casa, e se sentia a vontade onde quer que esteja. Mas agora to eu aqui, me preparando pra deixar este povo que agora tbem é meu…

Mais uma vez… a vida e a capoeira; sedução e rasteiras nas gingas envolventes da história… Individual e ao mesmo tempo genérica.

Obrigado Mama África, por receber este filho bastardo de braços abertos

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30 de janeiro – Ê domingão inesquecível (1)!!!

 

Como deve ser de seu conhecimento, fevereiro tá chegando e com ele os meus últimos dias na terra-mãe.  Pretendo fazer a ultima postagem ainda antes de viajar (dia 2 de fevereiro)

 

A igreja tradicional africana

O pessoal aqui adora acordar cedo, tenho dormido muito pouco com esta história (*risos).

Acordamos as cinco da madrugada (no dia anterior cheguei bem tarde de Johannesburg já que fomos a um sarau muito maneiro com poesias recitadas em Zulu, Shona e Tswana). At Half past Five, Rutendo passaria para levar-nos (eu e Mama Buntu) na Igreja Tradicional Africana, instituição religiosa que Mama T. Buntu freqüenta.

Mama Buntu, Rutendo, Maluleke, Tumi e muitos outros amigos são adeptos de uma filosofia religiosa chamada Amen Rá. Segundo eles esta “religião” (eles não gostam deste termo mas eu não consegui entender como preferem ser classificados) reúne conhecimentos Téo-filosóficos de diversos povos negros espalhados pelo mundo antigo.

Reúnem-se freqüentemente para praticar o Kemetic Yoga e estudar a sociedade, cultura e a religião egípcia. São vigans (uma tendência vegetariana que não come carne, ovo, leite nem qualquer derivado destes gêneros alimentícios), por acreditar que a carne é ruim para uma glândula localizada perto da nuca, glândula esta responsável pelo Sakra que nos conecta com as energias cósmicas (ou divinas).

Baseados em diversos estudos acadêmicos sobre a presença negra nas grande civilizações antigas (china, índia, babilônia,  olmeca etc) e a influencia do Egito no desenvolvimento destas civilizações, eles afirma que as grande religiões monoteísta da sociedade contemporânea tem como ancestral comum a religião Egípcia, em especial o culto a um “Deus Único” (Rá),Inaugurado por Tutan-Amon. Segundo eles a “hebraica” palavra AMEM é na verdade uma variação fonética do antigo culto ao Deus Amon.

Pra quem não conhece a história, Tutankamon foi um faraó com grande acumulo intelectual, científico e estético que ao ver o poder real ser ameaçado pelo clero egípcio (que se tornava cada vez mais rico e influente) decretou a adoração a um único Deus, ou como costumamos dizer, a um Deus Único = Amon-Rá (o Deus Sol – energia vital).

Segundo Marcelo Gleysel, um físico brasileiro muito importante (e ateu), poderia ser esta a verdadeira origem do monoteísmo. Ele se baseia no Freud pra afirmar que os hebreus eram escravos no Egito nesta época, e se a bíblia estiver correta, Moises parte do clero. 

Sabemos pela bíblia (não me lembro em que livro da bíblia, nem capitulo nem versículo como fazem os crentes, mas me corrijam se eu estiver errado) que num primeiro momento Moisés foi adotado pela corte Kemética, mas quando cresce, após mudanças no regime político foge e organiza o êxodo judeu.

A história mostra que o reinado de Tutancamon foi um dos mais férteis para o Egíto, mas o clero, outrora destituído, se reorganiza e toma de volta o controle, recuperando o politeísmo e as antigas estruturações políticas… fazendo em seguida que o nome de Tutancamon e de toda a sua dinastia fosse apagado das inscrições oficiais e da memória do Egito.

Pois bem, segundo o pessoal da Amem Rá, o monoteísmo não nasce em Kemet, mas é herdado por estes de antigas civilizações africanas como a Yorubá (Região da Nigéria) e Monomotapa (Região de Moçambique), sendo o monoteísmo um fenômeno religioso genuinamente africano.

Outro dado interessante é que por não se denominarem propriamente como uma religião, concebem a participação de seus membros em diferentes cultos e crença, entendendo-as como diferentes manifestação das mesmas forças sagradas.

Em um dos grupos de Estudos que visitei havia gente da Sangoma (é muito parecido com candomblé de angola no Brasil), gente Rasta, gente que mistura cristianismo, esoterismo e outras crenças africanas, e gente da igreja tradicional africana (a igreja de Mama Bunto).

Depois de duas horas de estrada, chegamos a uma cidadezinha no interior, parecida com Mahikeing. No caminho, em pleno uma manha calorosa de domingo, muita gente bem vestida andando pela estrada, pedindo carona.

Paramos no caminho, e duas senhoras todas com pano na cabeça cobrindo os cabelos (inclusive Rutendo e Mama Buntu), tal como a minha vó Geralda faz de vez em quando. As damas, todas conversando em Tswana, estavam muito felizes e empolgadas.

Ao chegar no local, avistei uma grande tenda de lona, em cores azul e branco. Muitos carros e ônibus vindos de diversos pontos do país. As mulheres (velhas, jovens e crianças) todas com vestido grande e pano na cabeça (parecido com o Ojá do candomblé). Os homens todos (inclusive as crianças) de terno e gravata. Estava muito calor!!!

Fui logo sacando a maquina pra registrar o momento, e antes de entra fui avisado que não poderia usá-la dentro da tenda, sobe nenhum aspecto. Mama inclusive, pediu pra ver a maquina e se certificar de que estava desligada.

Enquanto caminhávamos em direção a tenda, eu podia ouvir uma musica (semelhante as musicas cantada pela Miriam Makeba ou Lebo M.), quando a musica cessava. Todos as pessoas (sem exceção) interrompiam os seus passos, curvavam a cabeça e oravam em coro as mesmas palavras em sua língua materna (Tsuana).   

 Até chegar à porta de tenda, paramos umas três vezes para a oração.

Quando entramos na tenda, avistei centenas, talvez milhares de pessoas, em roupas coloridas se ajeitando nas cadeiras. Enquanto procurávamos um lugar pra sentar, as cantigas seguiam-se em capela acompanhadas apenas por o balançar de um sino de metal.  Ao fim de cada canção, como havia ocorrido do lado de fora, todos, não importa onde estivessem, paravam para recitar em coro as mesmas palavras.

Para minha surpresa e alegria, avistei Mme Duiker (a mãe de Mama Buntu). Corri pra lhe tasca-lhe um abraço!

Depois de arrumar um lugar para sentermos, Mme Duiker sumiu em meio a multidão que não parava de entrar e sair da tenda.

Mama Bunto explicou que as musicas e rituais seguiriam até começar a celebração as 10 oras da manhã. Enquanto aguardávamos o inicio, o calor no local ia aumentando e junto com ele cada vez mais pessoas iam entrando em transe…  Suas expressões corporais  (e principalmente faciais) lembravam muito uma pessoa recebendo um nkisi.

As dez em ponto, as pessoas pararam de andar de um lado pra o outro e se sentaram. De repente a musica muda e à porta, eu podia avistar 20 “pessoas vestindo longas mantas lilás”, dez homens de um lado e dez mulheres de outro, todos portando grandes cetros que formavam um corredor piramidal. Através do corredor, centenas de crianças e adolescentes iam entrando, portando uma faixa amarela sobre o corpo e uma vela lilás bem grossa e acesa sobre as mãos.

Conforme as crianças iam entrando, muita gente em volta entrava em transe… Quando a ultima criança entrou (e acho que foram mais de cem), iniciou-se a entrada de velhos e velhas portando um cetro em uma mão e uma vela na outra… foram se enfileirando no que poderíamos chamar de pupto (é a única metáfora que disponho pra explicar), mas aqui as pessoas do pupto estava na mesma altura que os demais.

Quando o ultimo velho entrou… as 20 pessoas desmancharam o corredor piramidal e se espalharam entre a multidão.

Logo em seguida iniciou-se mais uma oração em coro… mas esta se repetiu por umas 7 vezes mais ou menos… ao fim. Um velho pega o microfone para iniciar a pregação… este foi o único momento em que lembrei de uma igreja cristã… mas o interessante é que a pregação durou uns cinco minutos apenas… logo em seguida, reiniciam-se as cantigas que são repetidas a exaustão formando um tipo de mantra.

Depois de cantar por algum tempo (perdi a noção do tempo naquele espaço), as canções cessaram, e um menino de uns 12 anos, portando um microfone sem fio, aparece correndo em direção a uma mulher velha que estava em transe…

Ele ajudando-a a se manter em pé, entrega-lhe o microfone nas mãos e ela começa a falar com uma voz muito roca e distorcida… como se não fosse ela a estar ali falando… fenomeno que as igrejas cristas interpretaram como posseção. Mas aqui, ao invés de um espírito maligno que deveria ser expulso, todos escutavam atentamente  o que a mulher (ou espírito) dizia, obviamente na língua Tswana. Depois de falar por uns dez minutos a mulher caiu no chão exausta, e as canções reiniciaram-se…

Durante cada canção, sempre articuladas com as pregações, mais pessoas iam entrando em transe, e o microfone sendo entregue à cada uma, para o que seria a verdadeira pregaçao. Cabia ao menino portador do microfone identificar num publico de aparentemente umas 2 mil pessoas, quem estava acompanhado de forcas sobrenaturais aptas a falar. Este processo se repetiu por horas, falando ao microfone umas 20 pessoas (crianças, velhos, jovens etc).

Enquanto seguiam se musicas e pregações o calor na tenda chegava perto do insuportável, e o mantra criado pelas canções sugeriam uma espécie de meditação… a um estagio bem elevado de concentração… A sensação, que obviamente não conseguirei transcrever tal como senti, lembra um culto religioso do filme Avatar, quando interconectados na terra mãe, os indivíduos são um… a vida fluindo em afinadas vibrações cósmicas.

Lembrei na hora de uma corrente muito interessante da física quântica que afirma que os diferentes corpos (matéria) espalhados pelo espaço cósmico, são apenas diferentes notas vibratórias de uma mesma corda infinita (energia)… Esta teoria, batizada de “Super-corda”, pode ser metaforicamente explicada através da musica… corpos em movimentos vibratórios conduzindo energia a outros corpos, estimulando vivencias e sensações únicas e ao mesmo tempo genéricas.

Era possível se sentir indivíduo e ao mesmo tempo universo… (me entende?) Experimento sensações similares  na roda de capoeira às vezes, mas aqui a descarga energética veio em dose cavalar.

O que mais me chamou a atenção nesta historia foi o fato de que os espíritos não escolhiam altas patentes religiosas, aliás, visualmente eu não pude distinguir quem eram os sacerdotes e quem eram os fieis.

E com a leitura, ainda em transe de um livro, que eu não identifiquei qual era, o culto foi se encerrando.

Saímos antes de acabar porque a nossa viagem de volta seria longa e para mim o dia estava apenas começando…

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29 de janeiro – Tá olhando o que? Sou preto mais sou MACHO!!!!

 

Lembrei-me de quando era criança, com oito anos de idade já havia interiorizado alguns ritos socialmente construídos e naturalizados em nossa sociabilidade.

Eu gostava de uma menininha minha idade chamada Deyse. Apesar de nunca ter revelado verbalmente a minha paixão, eu dizia a mim mesmo que ela era a minha namoradinha. De vez em quando, ela vinha com a mãe visitar o meu visinho, o Véio Casquinha (seu tio). Não me lembro se cheguei a conversar alguma vez com ela (mas era a minha namorada *risos).

Quando ela surgia, eu convidava (desafiando) o meu melhor amigo André, (sem que ele soubesse das minhas verdadeiras intenções) para apostar corrida até o outro bairro (exatamente o caminho que ela faria).

Não lembro bem o que me passava pela cabeça na época, mas acreditava (ou já sabia?) que macho tal qual um pavão teria que “exibir o potencial da minha calda” para conquistar a atenção da bela dama (a fêmea).

Hoje, como tem sido todos os dias, acordamos cedo para mais uma atividade da Ebokhosine Solutions, o Shabaka!!!.

No caminho Baba Buntu me explicava que Shabaka foi um grande faraó egípcio de origem etíope que conseguiu re-unificar o povo kemético após a invasão dos Ícsos (um povo de caucasiano  do oriente médio), expulsando-os do país e construindo posteriormente um grande império, bem maior que o anterior. 

Segundo Baba Bunto a idéia do Projeto Shabaka é discutir masculinidade negra a partir de uma leitura crítica dos padrões hegemônicos de gênero presentes em nossa comunidade, dialogando com os valores presentes na cultura africana.

Fiquei bastante empolgado com a idéia, porque há um tempo venho pensando no assunto em relação aos homens negros brasileiros (principalmente os jovens). Fiquei muito curioso pra saber como este debate se dá no continente africano.

No longo caminho até Johannesburg   entre um silencio e outro de uma conversa, minha caixa de pensamento era bombardeada por idéias, lembranças e dúvidas sobre a masculinidade negra e lógico, a minha posição no meio disto, como fruto do “negro drama”.

Ao mesmo tempo em que eu lembrava da minha “namoradinha” Deise na infância, lembrava de outras situações na vida “adulta” em que estes ritos se repetiam, lógico que com outras roupagens.

Nesta “viagem sobre a maionese” visitei teorias anteriormente lidas e, avistando lembranças a muito perdidas me larguei escolásticamente sobre o próprio pensamento:

Para enfrentar uma inferiorização social e historicamente construída em benefício dos homens, o movimento feminista (me refiro aqui as tendências teóricas existencialistas, marxistas ou “pos-extruturalistas”) negaram qualquer diferença naturalmente estabelecida entre homens e mulheres, atribuindo as diferenças de habilidades, sensibilidades, e visão de mundo (etc) à alienações sociais provocadas pelo machismo, sexismo, capitalismo etc…

Mas aí eu pensei…  (com exceção do Pipi e da Xoxota), seriam mesmo socialmente construídas todas as outras diferenças entre homens e mulheres? Seria o movimento feminista fruto de um momento histórico que procurava justificar na natureza as desigualdades sociais?

E os homens neste debate? Qual seria o lugar para nós, nesta proposta libertadora defendida pelo feminismo? Devemos temer? Resistir? Enfrentar? Aderir?

Se as relações de gênero (pra usar um termo muito didático do feminismo contemporâneo) referem-se a homens e mulheres construindo seu cotidiano em relação recíproca… o que perderíamos  ou ganharíamos com uma possível emancipação  das mulheres?

E “nois que é preto”?! “Sujeito homí!!!! com (o fálico) microfone é tudo no meu nome!!!”. Como ficamos neste molho? Pq se para a sociedade machista, ser homem é ter um falo poderoso… (a calda do pavão), como é ser Homem (preto) sem poder? Só resta o falo? (ufa!!! Espero que reste mesmo alguma coisa!!!).

E se a cauda do pavão preto não dor digna de admiração? Sobra o que?

Até que ponto a nossa identidade de homens negro, super-viril, másculo, guerreiro, pintudo, insaciável, quase mais que homem, quase fera, meio bicho, meio animal no cio… quase homem… domesticável! ?

E se eu faço a crítica a tudo isto? Ponho o que no lugar?

Poderia este Work Shop responder todas estas questoes? (*risos)

Chegando ao local, Baba Buntu e eu organizamos as cadeiras em círculos, ligamos os aparelhos de som e ficamos aguardando a galera chegar… aos poucos foram chegando um por um, lotando as cadeiras disponíveis.

Baba iniciou a oficina pedindo pra falarmos o nome, o lugar de onde vem e uma coisa nossa que as pessoas não sabem… Ele mesmo começou dizendo o nome, de onde vem e em seguida falou que quase ninguém sabe que ele é musico e produtor (aliás, produz uns rap’s misturados com jazz muito maneiros). As pessoas que me antecederam, todas falaram coisas sobre si relacionadas a musica e a esporte. Foi quando decidi guardar pra mim o que eu ia dizer (não vou contar aqui *risos) e falar qualquer coisa menos polêmica, tipo que eu gosto muito de física quântica. (ta pensando o que? Ser homem tbém exige alguma discrição * risos).

Em seguida Baba pediu pra geral falar um projeto de vida… (foi quando percebi que este encontro era continuidade de outros anteriores e que talvez o tema de hoje não fosse exatamente masculinidade)

A maioria das pessoas falou sobre projetos econômicos. É muito interessante que aqui, o “movimento negro” (se é que podemos chamar assim), ou pan africanista (como é chamado) tem como prioridade o incentivo ao empreendedorismo juvenil. Após a chuva de idéias, o Baba Buntu ia destrinchando e problematizando os diversos projetos de forma que ajudasse a cada participante visualizar como colocá-los em prática.

Na segunda parte da atividade fizemos uns exercícios de capoeira pra ninguém dormir e em seguida Baba instigava o pessoal a pensa sobre a responsabilidade comunitária de cada proposta de empreendimento. Ou seja, até que ponto aquilo que os jovens estavam pensando corresponderiam às necessidades da comunidade negra.

O encerramento foi uma reflexão sobre a importância de se ter responsabilidade sobre as próprias ações e perseverança para alcançar os objetivos.

Mas pêra aê!!! E a masculinidade negra?

Como este encontro era uma seqüência de outros, este não foi o  tema com o qual o grupo se debruçou hoje, embora volta e meia o Baba fazia algumas provocações neste sentido.

Mas enfim…

O work shop não respondeu as questoes que  me suscitou (ou ressuscitou) mas foi um belo convite a reflexão sobre o lugar do homem preto neste moinho de moer gente que vivemos.

E. Cleaver, um polêmico (mas muuuuuiiiiiito polêmico) autor negro de um livro chamado “Alma no exílio” (UM CLÁSSICO – LEITURA OBRIGATÓRIA PRA QUEM QUER ENTENDER A INTERSECÇÃO ENTRE GENERO, RAÇA E CLASSE), discorre irreverentemente (e indigestamente) sobre vários temas dentre os quais está o lugar do homem negro na sociedade de classes.

Para ele (e infelizmente eu concordo)  a relação entre racismo, machismo e capitalismo gera uma intersecção de diferentes tipos de alienação, levando-nos todos nós (seres humanos) a vivenciar uma humanidade medíocre e limitada ao que o nosso lugar social nos permite.

Na divisão social do trabalho existem funções naturalizadamente reservadas aos machos (trabalho pesado, prover, caçar, e ter uma invejável cauda de pavão) e as fêmeas (ser sensível e cuidadosa com as crias, cuidar do espaço privado e estar cheirosa e sorridente quando o macho voltar cansado da batalha).

Mas como vivemos um uma sociedade racista, existem diferenças de expectativas e de divisão de trabalho para machos negros e machos brancos, mulheres negras e mulheres brancas. Como escravo (ou descendente)  cabe ao homem negro as funções masculinas mais severas – não por acaso, relacionadas ao corpo.  É esta a função de um bom escravo = ser corpo! (bom bonito e saudável) .  Dispondo de uma invejável habilidade corporal para serviços pesados, difíceis ou criativos.

E o homem Branco? Bom, este como macho alfa, dominante, cabe-lhe a função de administrar o processo. Dirigir, pensar, raciocinar – mandar.

Para Cleaver (e mais uma vez infelizmente eu concordo), esta divisão racial do trabalho explica uma idiota separação (comemorada por muito militante negro desavisado) entre corpo e alma, ou razão e emoção, cabendo sempre ao negro as funções corporais (esporte, arte, religião, o varejo do crime, ou força bruta policial etc) e ao branco as funções administrativas ou intelectuais (ser técnicos dos times que os negros jogam, definir teoricamente o que é arte e religião, comandar o atacado do crime, dar a ultima palavra em ciência, e principalmente administrar a sociedade).  (estes exemplos em parentes são meus pra ironizar a nossa sociedade, já que o cleaver escreve na década de 60, eu acho).

Segundo ele , apesar de machos, temos acesso a uma partinha desta masculinidade, fazendo com que sejamos (os negros)Eunucos (homens castrados), já que o poder central da masculinidade esteja sobre o controle dos Brancos. (por favor, se eu estiver falando coisas que não tem a ver com a realidade, me critiquem nos comentários, de boa, sem perder a amizade!!!).

O que isto significa na prática? (seguindo o Cleaver)

Que nós homens negros, mesmo no auge da afirmação da nossa masculinidade (com nossos corpos negros ultra viris quase fera), não fazemos mais do que aceitar o lugar reservado pelo branco (o administrador onipotente)… o lugar do corpo. Não é a toa que só nos aceitam em lugar de destaque no fultebol, no basquete, no boxe, na cama (ummm, este é o mais polêmicos dos lugares!!), pois é este mesmo o nosso lugar nesta divisão racial alienante.

E mais do que isto, de acordo com o Cleaver, a nossa necessidade (nosso negro drama) de afirmar SIMBÓLICAMENTE a masculinidade (seja qual for a forma que encontremos pra exibir a nossa cauda) tem como origem principal o fato de sermos castrados NA VIDA REAL. Nas sábias palavras de Vilma Reis (valorosa militante negra da Bahia), o homem negro foi destituído de um projeto próprio de masculinidade.

Pra engrossar o molho, uma feminista branca chamada Sulamith Firestone, num livro fantástico (infelizmente muito pouco conhecido, mesmo no feminismo) ao ler o livro do Cleaver e contrapor com o depoimento de algumas militantes negras, vai dizer o seguinte:

Que o homem negro (Leão que foi castrado pelo racismo) abana o rabo para o patrão branco enquanto rosna para a mulher negra ou para outros negros…

Veio-me a mente agora uma entrevista do ex secretario de segurança do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares que ao ser questionado se a violência é algo inerente ao homem, responde: “em todos os meus anos de polícia, eu nunca vi um empregado frustrado com o serviço, encher a cara e descontar no patrão (pode acontecer mais é raro), o natural é descontar na mulher ou nos filhos, o elo mais frágil da cadeia”.

Voltando à Sulamith Firestone, ela recolhe depoimentos de algumas militantes negras pra afirmar (e já li a Ângela Davis falando o mesmo) que muitas vezes a “unidade negra” serviu como cortina pra omitir diferentes formas de violência do homem negro contra a sua companheira. E esta, acuada, tinha de escolher entre o silêncio da violência de gênero ou a denuncia do companheiro militante, fato que seria útil a interesses racistas, uma vez que fragilizaria a imagem do movimento.

Outra feminista branca muito importante para este debate é Eleiéte Safiotti (esqueci o nome do livro) quando fala que o homem (branco ou preto) “paga muito caro pelo poderzinho que tem”. Em outras palavras, pra ela que concebe o machismo como relação social estabelecida entre homens e mulheres (gênero), os homens também se ferra com o machismo e teriam muito a ganhar se questionassem o seu lugar de macho.

Esta reflexão de Eleiéte faz couro com outros estudiosos no assunto como Fávio Gicovatte, José Angelo Gaiarsa, Benedito Medrado e Parker.

Mas como seria este (auto?) questionamento  a partir de uma perspectiva de emancipação negra?  

Nós  sujeitos quase homens, que castrados nos sobra ser fera na cama, bandido no palco e soldado no crime… O que sobra de nós ao abrir mão deste que é único lugar (de poder) em que sou macho???  

E as “namoradinhas”, continuarão admirando os garotos pavões que “auto-críticos” (ou apavorados) escolherem encolher a cauda e não dançar a dança machista do acasalamento? Ou este ritual está além das relações de gênero, presente numa memória antiga herdada dos nossos ancestrais quase homens?

Sinceramente eu não me sinto preparado pra responder nenhuma destas perguntas. Já que tbem, e principalmente por ser  “fruto do negro drama”, sobra gingar entre os papeis naturais socialmente determinados e as diversas possibilidades contra-hegemônicas que a vida sempre oferece…

Felizmente, olhando pra minha própria trajetória, e outros homens fantásticos que admirou e tento ser um fio de cabelo deles, posso dizer com segurança que se a Eleiéte Safiotti está certa ao dizer que “o homem paga muito caro pelo poderzinho que tem”. Também é verdade que o questionamento a alguns padrões “naturais” (de masculinidade ou afro-masculinidade) possibilitam vivencias um pouco mais ricas e prazerosas (não menos conflituosas, é lógico!).

Espero um dia ter inglês “no pente”pra saber o que o Baba Buntu (que é um homem fantástico) acha de tudo isto.  Mas por enquanto fica entre nós, leitores de português (*risos).

E vc, o que acha?

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